Diagnóstico por Imagem8 de julho de 2026· 9 min de leitura

Ultrassonografia Veterinária: o olhar que não mente

Como o exame ultrassonográfico transformou o diagnóstico complementar na rotina clínica de pequenos animais — e por que interpretar imagens vai muito além de saber apertar o botão

Prof. M.V. Flávio Nunes

Prof. M.V. Flávio da Silva Nunes

Médico Veterinário, Educador e Pesquisador · CRMV-RJ 7803 · MSc

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Exame ultrassonográfico veterinário
A ultrassonografia em tempo real permite avaliar órgãos em movimento e diferenciar estruturas sólidas de císticas.

Quando o paciente entra no consultório e o exame físico levanta suspeitas, o ultrassom passa a ser um dos instrumentos mais valiosos que um médico veterinário pode ter à sua disposição. Não porque ele dê todas as respostas — mas porque ele faz as perguntas certas.

O que é a ultrassonografia e como ela funciona

A ultrassonografia é um método de diagnóstico por imagem baseado na emissão e recepção de ondas sonoras de alta frequência (entre 2 e 15 MHz, dependendo do transdutor e da região avaliada). Quando essas ondas encontram interfaces de diferentes densidades acústicas nos tecidos, parte delas é refletida de volta ao transdutor — e essa informação é convertida em imagem em tempo real.

Diferentemente da radiografia, que avalia densidades em um plano bidimensional fixo, o ultrassom permite:

  • Avaliação dinâmica de órgãos em movimento (como o coração e o peristaltismo intestinal)
  • Diferenciação entre estruturas sólidas, císticas e mistas
  • Guia para procedimentos invasivos como biópsias e cistocenteses
  • Avaliação vascular com Doppler colorido e pulsátil

Indicações clínicas na rotina de pequenos animais

Na prática com cães e gatos, o ultrassom abdominal tem aplicação ampla. Entre as principais indicações estão:

  • Avaliação hepatoesplênica: hepatomegalia, nódulos hepáticos, esplenomegalia e massas esplênicas são achados frequentes que exigem correlação com hemograma e bioquímica antes de qualquer conclusão
  • Sistema urinário: nefrolitíase, hidronefrose, cistite, pólipos vesicais e massas renais têm apresentações ultrassonográficas características
  • Trato gastrointestinal: espessamento de parede, perda de camadas, corpo estranho e intussuscepção são reconhecíveis por um examinador experiente
  • Reprodutivo: piometra, gestação, cistos ovarianos e avaliaçào prostática são aplicações rotineiras
  • Adrenais: o achado de adrenomegalia pode ser a chave diagnóstica em casos suspeitos de hiperadrenocorticismo

A ecocardiografia como subcategoria crítica

A ecocardiografia — ultrassonografia cardíaca — merece atenção especial. Em raças predispostas à doença valvar mitral (Cavalier King Charles Spaniel, Dachshund, Yorkshire) ou à cardiomiopatia dilatada (Dobermann, Boxer, Great Dane), o ecocardiograma é ferramenta indispensável tanto para diagnóstico quanto para estadiamento e monitoramento terapêutico.

As medidas ecocardiográficas — razão AE/Ao, fração de encurtamento, volumes ventriculares — definem o estadiamento segundo os critérios ACVIM e orientam decisões terapêuticas com impacto direto na sobrevida do paciente.

O erro mais comum: confundir imagem com diagnóstico

Aqui está um ponto que precisa ser dito com clareza: ultrassonografia é método auxiliar, não diagnóstico definitivo. Um nódulo hepático hipoecoico pode ser hepatocarcinoma, regeneração nodular, hematoma ou até lipidose focal. A imagem sozinha não responde — ela levanta hipóteses que precisam ser correlacionadas com:

  • Anamnese detalhada e evolução clínica
  • Exame físico completo
  • Hemograma, bioquímica sérica e urinálise
  • Citologia ou histopatologia quando indicada

O raciocínio clínico integrado é insubstituível. O ultrassom é um olho — mas o diagnóstico é um cérebro.

Capacitação e treinamento: o que separa o bom examinador

Operar um aparelho de ultrassom e interpretar imagens ultrassonográficas são competências distintas. A qualidade do exame depende de:

  • Conhecimento profundo da anatomia seccional de cada espécie
  • Capacidade de reconhecer variações de normalidade e não confundi-las com patologias
  • Protocolo sistemático de varredura (não pular órgãos ou regiões)
  • Correlação imediata com a clínica do paciente

O médico veterinário que domina ultrassonografia não é aquele que gera imagens bonitas — é aquele que sabe o que está procurando, reconhece o que encontra e entende o que ainda não está visível.

Integração com medicina preditiva

Em um contexto de medicina preventiva e preditiva, o ultrassom ganha dimensão ainda maior. Rastreamentos em animais assintomáticos com predisposição genética — raças cardiopatas, predispostas a tumores esplênicos ou com histórico familiar de doença renal — permitem intervenção precoce e impactam diretamente o prognóstico.

É nesse ponto que a ultrassonografia deixa de ser apenas ferramenta diagnóstica e passa a ser instrumento de medicina preventiva ativa.

Referências bibliográficas

  1. Mattoon JS, Nyland TG. Small Animal Diagnostic Ultrasound. 3ª ed. St. Louis: Elsevier Saunders; 2015.
  2. Penninck D, d'Anjou MA. Atlas of Small Animal Ultrasonography. 2ª ed. Oxford: Wiley-Blackwell; 2015.
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  6. Nyland TG, Mattoon JS, Herrgesell EJ, Wisner ER. Ultrasound-guided biopsy. In: Nyland TG, Mattoon JS (eds). Small Animal Diagnostic Ultrasound. 2ª ed. Philadelphia: Saunders; 2002. p. 30-48.

Aviso legal: Este artigo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui avaliação veterinária presencial, interpretação individualizada de exames ou orientação profissional habilitada. A realização e interpretação de exames ultrassonográficos deve ser feita por Médico Veterinário habilitado.

Temas abordados

ultrassonografiadiagnóstico complementarimagem veterináriaabdômenecocardiografiamedicina preditiva
Prof. M.V. Flávio Nunes

Sobre o autor

Prof. M.V. Flávio da Silva Nunes

Médico Veterinário, Educador e Pesquisador · CRMV-RJ 7803 · MSc

Criador do Ecossistema ConectaVet® e do Método Nunes. Médico Veterinário, Educador, Empreendedor e Pesquisador Acadêmico com foco em medicina preditiva, clínica de pequenos, comportamento, diagnóstico por imagem e tecnologias aplicadas à prática médica veterinária.

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